Francis Harris, Leland

91-og

“É preciso sentir ou nomear-se, escolham. A linguagem ou a pele, estesia ou anestesia. A língua endurece os sentidos.”  (SERRES, 2001, p.69)

Francis Harris é phD em Filosofia e também é o nome por trás do Adultnapper, seu dark alter ego do eletrônico. Como representante do tech/house, sua estrutura musical é extremamente sofisticada: mesmo quando tende para sub gêneros mais suaves, suas bases se mantêm bastante densas com arranjos bem refinados e complexos. Aquele leve tom melancólico das notas sustenidas cercadas por uma atmosfera tão pessoal chega a soar egoísta – e, veja bem, isso é um elogio.

Com quase 5 anos de idade, o Leland foi lançado pela própria label do Harris, a Scissor & Thread (inclusive, esse é o selo pelo qual o Desert Sound Colony também lança seus discos), mas ele deveria ter nascido como um álbum para a Poker Flat. De acordo com a review do RA, quando Harris iniciou a produção do mesmo, a intenção era que ele se transforma-se em um club LP, similar a sua produção musical no Adultnapper.

Acontece que a vida tem dessas reviravoltas. O pai de Harris havia sido diagnosticado com câncer há anos e, em 2010, a doença foi descoberta em sua mãe. Conforme toda situação se agravava, seu trabalho não poderia ter tomado outro rumo se não a transmutação. Em 2012, como um réquiem, o Leland foi dedicado à memória de seu pai.

The kind of sound it became is a mix of live instruments and synthesizers, its arrangements treated with an indie sensibility. Strings, horns, and melancholy vocals flit and weave over and through dubby beats, free-range rhythms are infused with ethereal melodies. It all adds up to an impassioned suite of songs that’s introspective but still dancefloor-friendly.

Jorge Hernandez, Magnetic Magazine.

Esse curto documentário foi produzido pela Inverted Audio em uma entrevista sobre o segundo álbum do Francis, o Minutes of Sleep (2014), mas explica de que forma a perda de seus pais influenciaram no seu trabalho e todo o processo criativo que envolveu a transição de “Adultnapper” para “Francis Harris“.

Ele pode ter abandonado os bpms rapidinhos, mas os bpms vieram até ele mesmo assim. O Leland ganhou 3 belíssimos volumes mixados, que você pode conferir no mesmo link do Bandcamp abaixo:

O mais surpreendente é que tive contato com o Leland antes de saber das condições nas quais ele foi concebido. Ainda assim, logo que a última faixa terminou, o silêncio incômodo no fone de ouvido – com aquele ruído abafado do trânsito lá fora – me trouxe um aterrador sentimento de solidão.

Uma das minhas maiores inquietudes é pensar sobre as limitações que a linguagem nos impõe: além das limitações do corpo, a linguagem também é responsável por deturpar nossa percepção da realidade e, por mais próxima que ela esteja do intelecto, será sempre inatingível. Este intelecto carece do intermédio de uma língua para alcançar algum significado, sendo extremamente difícil desassociá-los.

De todos os códigos que criamos na frustada tentativa de codificar aquilo que chamamos de realidade, é o som, é ele que faz escoar e ecoar as inquietações mais volúveis e efêmeras das mentes criativas, é ele que faz vibrar na matéria do corpo do outro o mesmo que vibra na sua.

2012, Brooklyn. Francis’ Bandcamp, Spotify.

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